Centro Cultural Pró-Música
Juiz de Fora - MG - Brasil  


Entrevista/Rosana Lanzelotte


"O atual desenvolvimento da música antiga no Brasil não seria possível sem a atuação do Pró-Música"




Divulgação



A consagrada cravista Rosana Lanzelotte fala nesta entrevista sobre projetos vitoriosos, sobre sua carreira e sobre a importância do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música antiga ao preencher uma lacuna no ensino de instrumentos antigos no Brasil.
Jornal Pró-Música - Este ano, a Série Música nas Igrejas completou 15 anos. Quais são os desafios de promover uma série itinerante de concertos exclusivos e gratuitos realizados em igrejas e mosteiros. Os objetivos da iniciativa vêm sendo atingidos?

Rosana Lanzelotte - Música nas Igrejas é a única série que leva a música clássica de qualidade aos subúrbios do Rio. Conquistamos um público cativo, cada vez maior. Mesmo com o pouco espaço dedicado pelos jornais a concertos fora do circuito habitual, as igrejas estão sempre lotadas de um público entusiasmando e sensível.


Este ano, a série presta homenagem aos 200 anos de chegada da família real ao Brasil. Como foi a seleção das atrações para atender a este tema e quais são os projetos para 2009?

Em 2008, os concertos focalizaram principalmente os compositores da corte de D. João: José Maurício, Marcos Portugal e Sigismund Neukomm. Deste último, a primeira sinfonia escrita em terras brasileiras foi magnificamente tocada pela Orquestra Barroca do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Musica, liderada por Luis Otavio Santos, a quem agradeço pelo belíssimo concerto.


Fale-nos um pouco sobre os seus projetos como cravista, em especial, sobre o lançamento do mais novo CD.

Ser músico no Brasil é uma profissão de fé. Luta-se contra toda a espécie de dificuldades, desde a falta de espaço na mídia, passando pelas poucas verbas nos editais e pelos minguados cachês. Em parte, somos responsáveis por isso. Enquanto os profissionais de teatro e dança unem-se para lutar pelos seus espaços e verbas, nós nos isolamos e ficamos fora das discussões. Na Câmara Setorial de Música, que discutiu as questões a serem consideradas pelo Plano Nacional de Cultura, a música de concerto brilhou pela ausência quase que total. Como disse o maestro Gil Jardim, a nossa área se caracteriza pelos sucessos individuais. Não há conquistas coletivas, de melhores condições e maiores oportunidades de trabalho. Uma exceção a esse “modus operandi” foi a conquista de um grupo liderado por Felipe Radicetti, que convenceu os nossos parlamentares a votar pelo ensino obrigatório de música nas escolas. Villa-Lobos o havia conseguido e muitos de minha geração estudaram canto orfeônico graças a ele. Nem sei se essa é a melhor maneira de se apropriar da arte musical, mas o fato é que, quem aprende a tocar um teclado antes dos dez anos de idade, tem 30% a mais de massa cinzenta no cortex auditivo e 15% a mais de corpo caloso, que promove a ligação entre os dois hemisférios do cérebro. Se isso significa maior inteligência não se sabe, mas o fato é que cada vez mais empresas recrutam músicos para as suas atividades de informática. A minha carreira vai muito bem, obrigada. Tenho ótimos músicos como parceiros: Ricardo Kanji, Antonio Meneses e Clea Galhano. Com o primeiro, farei concertos brevemente em Madrid, Lisboa e Paris. Com o segundo, tocarei em Roma e Siena. Com Clea, depois de uma linda aventura no Wigmore Hall em Londres, faço em breve um recital no Weill Hall, do Carnegie Hall em Nova York. Sou uma cravista de sorte. Ricardo Kanji e eu lançaremos em breve o CD “Neukomm no Brasil” com o repertório que inaugura a música de câmera no Brasil, de autoria de Sigismund Neukomm, pelo selo Biscoito Fino. Esta é uma viagem que já dura cinco anos. Desde que o saudoso José Maria Neves colocou-me na trilha de Neukomm, apaixonei-me pelo músico e pelo personagem. Passei a tocar fortepiano por causa dele. Fiz inúmeras visitas à Biblioteca Nacional da França para levantar suas obras relacionadas com o Brasil, entre as quais essas que acabamos de gravar. São importantíssimas, não só pela qualidade musical como pelo ineditismo. Além de serem as primeiras obras de câmera escritas no país são também as que inauguram a mescla de música clássica e popular. Neukomm encantou-se pela modinhas de Joaquim Manoel da Câmara e escreveu “L”amoureux”, encantou-se pelo lundu de Caldas Barbosa e escreveu “O Amor Brasileiro”. Uma das frases mais conhecidas do hino nacional está na Fantasia que escreveu para flauta solo.


Como você avalia o trabalho desenvolvido pelo Centro Cultural Pró-Música de Juiz de Fora?

Não há como elogiar o trabalho desenvolvido pelo Centro Cultural Pró-Música de Juiz de Fora, tal a importância de que se reveste. Ainda são poucas as universidades e conservatórios em que se pode aprender os instrumentos típicos do barroco, como o cravo, o violino barroco, a viola da gamba, entre outros. O Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga preenche uma lacuna nesse sentido. O atual desenvolvimento da música antiga no Brasil não seria possível sem a atuação do Centro Cultural Pró-Música de Juiz de Fora.




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