Centro Cultural Pró-Música
Juiz de Fora - MG - Brasil  


Entrevista/JANETE ANDRADE


"Também sonho que o meu Festival possa atender a sociedade na formação da cidadania, como o Pró-Música tem feito"




Divulgação


Em entrevista ao Jornal Pró-Música, a diretora geral da Oficina de Música de Curitiba, Janete Andrade, fala sobre seu primeiro contato com a música, seus projetos e a importância do evento para o país. Formada em música pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Janete destaca a admiração que tem pelo trabalho desenvolvido por Luis Otávio Santos, diretor do Festival internacional de Música Colonial e Música Antiga, promovido, anualmente, pelo Centro Cultural Pró-Música.

Jornal Pró-Música - A senhora começou na música muito cedo, estudando em vários estados brasileiros e no exterior. Conte-nos um pouco da sua trajetória até se tornar diretora da Oficina de Música de Curitiba.

JANETE ANDRADE - Comecei a minha vida, como digo, “vítima” de uma boa política cultural. Foi um curso de flauta doce, daqueles “aprenda a tocar flauta doce em dez dias”, no qual deveriam participar, no mínimo, umas cem crianças. O curso era no Centro de Criatividade, espaço mantido pela Fundação Cultural de Curitiba, que promovia diversas atividades que estimulavam todas as linguagens artísticas. Eu passava as minhas tardes por lá, aguardando que alguém fosse me buscar, e com isto fui adquirindo mais gosto por aquele universo. Depois desse momento, fui orientada para outros cursos, até chegar na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Porém, o que me atraía mesmo era o universo da música antiga, cujo primeiro festival informal foi criado na década de 1980, pela Eunice Brandão e pela atual presidente do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, Lúcia Camargo. Nesta época, Curitiba tornou-se um pouco o centro da música antiga. Foi formado um outro grupo, criado pela Eunice, anexo à própria Camerata Antiqua de Curitiba, que se chamava Grupo Renascentista. A partir desse grupo, o resto tornou-se história, e Curitiba também fez a sua história na música antiga. Quase todos os integrantes foram se especializar na Europa, inclusive eu. Quando voltei, em 1991, após seis anos em Basel (Suíça), estudando oboé barroco, comecei a observar que não seria tão fácil a vida profissional. Apesar de tudo o que havíamos feito pela Música Antiga, eu ainda não tinha como me inserir em nenhum mercado de trabalho. Foi muito difícil, era quase ter que pagar para trabalhar. Em 1993, surgiu a primeira oportunidade de iniciar um trabalho voltado burocraticamente para a música, na Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Mesmo assustada com esse desafio, resolvi aceitar sem saber exatamente o que iria fazer. Foi quando comecei a trabalhar com os festivais de música pelo interior do Paraná, na época em Cascavel, Londrina e Maringá, me apaixonando pelo lado da organização e acabando por abandonar a minha vida como musicista. Este trabalho me conduziu à Fundação Cultural de Curitiba, em 2001, e à Oficina de Música, onde estou até hoje.


Como tem sido o trabalho como diretora da Oficina de Música de Curitiba, um pólo de formação de músicos e instrumentistas do país e exterior? Qual é a importância do evento?

A Oficina, para mim, tem um sabor especial, pois participei da sua criação, em 1983, junto com meus colegas de Música Antiga, primeiro ajudando a limpar o Solar do Barão (sede da Oficina de Música no início) para receber os alunos. A cidade havia acabado de ganhar esse espaço cultural, restaurado e transformado num centro importantíssimo para a vida musical da cidade. Em segundo lugar, como aluna, depois, em 1993, como professora e, desde 2002, de alguma forma, faço parte da direção. Portanto, conheço bem todos os lados desse empreendimento. Sempre adorei festivais e tive consciência de que muito do progresso que o músico faz na sua carreira no Brasil não está efetivamente ligado à sua vida acadêmica, dentro dos conservatórios, mas sim, aos grandes momentos e encontros com os mestres nos festivais de música. É aquele momento mágico, em que as coisas parecem acontecer, principalmente criando um caminho na vida das pessoas. A Oficina tem um gosto especial também, principalmente quando vejo pessoas que foram alunas e hoje retornam como professoras. Pelos meus cálculos, estamos entrando na terceira geração de músicos que viveram isso. Outro dia, em Belo Horizonte, tive uma conversa com o Nelson Kunze, editor da Revista Concerto, e ele me disse que foi justamente na primeira Oficina que ele decidiu que queria enveredar pelo universo musical, apesar de ter estudado engenharia. Fiquei emocionada com esse relato, principalmente por vir de alguém como ele.


Como avalia o Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, cujo diretor, o violonista barroco Luis Otávio Santos, é um dos professores convidados da oficina?

O Luis Otávio é, sem sombra de dúvida, um dos maiores talentos que o Brasil produziu nestas últimas gerações de músicos. Sempre é um prazer especial tê-lo no corpo docente da Oficina e, principalmente, estar como espectadora nos concertos em que ele se apresenta. Mas uma das coisas que mais admiro no Luis é esta seriedade com que ele realiza o Festival Internacional de Juiz de Fora (que só quem está à frente destes eventos sabe o quanto é difícil), e também registra, em cada Festival, um CD com a qualidade que ele consegue imprimir. Isto é realmente admirável no seu trabalho. Também tenho grandes esperanças de que uma nova era para o trabalho da música antiga no Brasil, pode ser desenvolvida por ele à frente da Universidade Livre de Música em São Paulo.


O que o público pode esperar da programação e dos cursos da Oficina de Música para 2009?

Esta Oficina tem um caráter delicado, do ponto de vista nosso, da direção. O evento é fundamentalmente patrocinado pela Prefeitura Municipal de Curitiba, e este ano é mais complicado, pois estamos em período de eleições. Como a Oficina acontece em janeiro, é o primeiro evento da nova administração. Sendo assim, ela é mais complexa de ser elaborada, pelos compromissos que temos que assumir para uma próxima administração, mesmo que a equipe continue a mesma. Mas, de todas as maneiras, já estou em contato com as instituições internacionais, que são os compromissos mais difíceis para 2009. Vamos ter o famoso ano da França no Brasil e, com certeza, vamos aproveitar para marcar a presença, sempre bem-vinda, de franceses no Festival. Há duas semanas, fui convidada pelo consulado polonês para começar a pensar nos 200 anos de nascimento de Chopin que, apesar de ser celebrado em 2010, eles já gostariam de fazer uma espécie de advento do ano Chopin em 2009. Também, mais do que nunca, gostaria de abrir espaço para trazer determinados documentários que dificilmente o público normal de Festival teria acesso, como este ano tivemos a produção Venezuelana Tocar y Luchar. Penso em algo como o documentário Rhythm Is It!, no qual o Simon Ratle fez, com a Filarmônica de Berlim, o coreógrafo inglês Royston Muldoon e 250 crianças, filhos de imigrantes em Berlim, sobre a Sagração da Primavera, de Stravinsky. Enfim, algo que as pessoas possam sair do cinema, refletindo o quanto a música pode transformar e dar perspectiva às suas vidas.


Qual a sua avaliação sobre o trabalho desenvolvido pelo Centro Cultural Pró-Música de Juiz de Fora?

Vem do Centro Cultural Pró- Música de Juiz de Fora um exemplo que eu adoro dar em entrevista, quando perguntam sobre meu sonho naquilo que faço. A minha grande amiga, Eunice Brandão, que, infelizmente, não está mais conosco, me contou uma história fascinante de como ela foi várias vezes convidada pelo Festival de Juiz de Fora e um dia estava saindo com a viola de gamba nas costas e parou em um pipoqueiro próximo ao local das aulas. Para sua surpresa, foi interrogada pelo pipoqueiro se o instrumento que ela carregava nas costas era uma viola de gamba e, como se não bastasse, ele ainda disse que adorava o Jordi Saval. Conto isso para demonstrar o quanto o Festival desperta a sociedade para a música, pois mesmo que o Jordi Saval nunca tenha ido a Juiz de Fora, seu trabalho chegou ao conhecimento de um dos pipoqueiros da cidade. Adoro esta história e sempre tenho colocado isto como uma meta para mim. Também sonho que o meu Festival, e outras atividades musicais que desenvolvo na minha cidade, possam atender ao máximo possível a sociedade, na formação da sua cidadania, como o Centro Cultural Pró – Música de Juiz de Fora tem feito.




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