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"Fiquei impressionado com o Centro Cultural Pró-Música"
Em entrevista ao Jornal Pró-Música, o maestro João Maurício Galindo, considerado um dos mais atuantes do país, conta o início do seu interesse pela música, o caminho rumo à regência, defende o aprendizado coletivo de instrumentos de cordas e as orquestras comunitárias. Galindo se diz impressionado com o trabalho desenvolvido pelo Pró-Música e com a qualidade dos CDs e DVDs lançados pelo centro cultural.

Jornal Pró-Música - O senhor é considerado hoje um dos profissionais mais atuantes do país. Como foi sua trajetória até estar à frente da Orquestra de Jazz Sinfônica. Como surgiu seu interesse pela música, em especial pela regência?
JOÃO MAURÍCIO GALINDO - O interesse pela música vem da infância. Na minha casa havia uma daquelas antigas “rádio-vitrolas” à válvula, e eu era fascinado por aquilo. Até hoje me lembro daquele maravilhosos aparelho! Minha mãe tinha uns discos antigos de cera, 78 rotações por minuto. No dia que eu encontrei aqueles discos começou minha paixão. Eu ouvia várias horas de música por dia. Quando eu conto essa história, muita gente fica pensando que eu era uma criança meio esquisita, mas não. Eu fazia o que todas as crianças faziam, adorava jogar bola na rua, adorava jogar futebol de botão e andar de bicicleta pelo bairro. Mas sempre reservava um tempinho para ouvir música. Depois dos discos 78 rpm eu descobri aqueles fascículos “Grandes Compositores” da Abril Cultural. Comprei todos que pude e ouvia tudo. Eu não me restringia à música erudita não, ouvia muita música popular também. Qualquer tipo de música me encantava. Quanto a ser regente, isso não fazia parte dos meus planos. Eu inicialmente queria saber tocar um instrumento. Estudei jazz (toquei um pouco de guitarra) e viola. Fui músico da Osesp e de vez em quando fazia turnês pela Europa com uma pequena orquestra de câmara. Entrei na faculdade de música para estudar composição e não regência. Esse era meu objetivo. Mas a vida me levou para a regência, por causa do meu trabalho com ensino coletivo de cordas, que aprendi com o grande Alberto Jaffé. De tanto trabalhar com orquestras de cordas de alunos, fui pegando o jeito. Começaram a surgir os convites para reger. Aí resolvi estudar regência seriamente. Trabalhei como regente assistente da Amazonas Filarmônica, da Orquestra de Santos, e fui titular da Filarmônica de São Bernardo do Campo.
Quais são as atividades atuais e os projetos futuros?
Atualmente sou diretor artístico e regente titular da Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo e da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado. Participo de uma série de concertos didáticos e beneficentes na Sala São Paulo chamada “O Aprendiz de Maestro”. São oito concertos por ano, produzidos pela Tucca: Associação para crianças e adolescentes com tumor cerebral. Além disso, tenho dois programas na Rádio Cultura FM de São Paulo. Quanto a projetos, quero concentrar meus esforços em transformar a Jazz Sinfônica em uma orquestra muito mais reconhecida do que é. Muita gente pensa na “Jazz” como uma orquestra de música popular no sentido mais de entretenimento, mas ela é muito mais que isso. Tenho certeza de que o repertório da “Jazz”, principalmente as partituras do maestro Cyro Pereira, vão entrar para a história da música brasileira. São obras primas. A Jazz nunca realizou uma turnê, nem nacional, nem internacional, por falta de recursos financeiros. Outro plano é fazer um livro com textos dos meus programas da Rádio Cultura. Os textos já estão escritos, é só organizar e editar.
A atuação pedagógica é um traço marcante do seu trabalho. Na sua avaliação, quais são os desafios e a importância do trabalho de formação de jovens músicos? Como é sua atuação à frente da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo?
Á frente de uma orquestra jovem, o maestro deve ser um misto de regente e professor. Cada ensaio deve ser como uma aula de música de câmara: ele deve chamar a atenção dos músicos para que toquem e se ouçam ao mesmo tempo, ajustando afinação, articulacão, etc. E o repertório tem de ser escolhido com muito critério. Se for difícil demais, acaba fazendo mal. Se for fácil demais, não estimula.A garotada gosta de desafios. E a diversidade do repertório também é importante. A garota ou garoto que passa um ano em uma orquestra jovem tem que tocar de tudo um pouco: clássicos, românticos, brasileiros, música sacra... Assim, quando sair da orquestra, terá uma razoável visão do que é o repertório sinfônico. Esses são alguns dos meus critérios de trabalho.
A defesa do ensino coletivo dos instrumentos de corda, que foi tema de sua dissertação de mestrado, rendeu frutos, como a orquestra de cordas comunitária, formada por músicos de toda a cidade de Goiânia. Conte-nos um pouco da importância desta metodologia e dessa experiência.
Essa experiência de Goiânia deve-se à professora Flávia Cruvinel. Eu apenas estive lá num fim de semana fazendo uma oficina. Lancei a idéia, plantei uma sementinha. Foi a professora Flávia quem abraçou a causa e fez o trabalho. E tenho de citar também a iniciativa da minha amiga e professora de contrabaixo Sônia Raimundo, que, na época, era vice-diretora do Departamento de Música. Foi ela quem teve a idéia de me convidar. Quanto à importância da metodologia, eu digo que acredito muito nela, mas ela ainda tem de ser defendida. Muita gente não acredita. E isso é até compreensível. O principal a dizer é o seguinte: o ensino coletivo só deve ser usado na iniciação. Depois de 12, 18 meses devem vir as aulas individuais, pra quem quiser ser um profissional um dia. E para quem não quiser ser musico a atividade em grupo pode se transformar em uma orquestra comunitária, outra coisa cujo valor também não é bem avaliado. Apenas pensemos que a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig começou com um grupo de músicos amadores tocando juntos. Vejam no que deu...
O senhor conhece o trabalho desenvolvido pelo Centro Cultural Pró-Música?
Sim, tive a oportunidade de visitar o Centro Cultural Pró-Música no ano retrasado e fiquei muito impressionado. Também me impressionou muito a qualidade dos CDs e DVD lançados pelo Centro, sob a direção do Luís Otávio.
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