"Eu me sinto realizado,
mas nunca procurei ser importante"
Arthur Arcuri é um engenheiro apaixonado pela arte. Tanto que uma de suas obras mais conhecidas é o mural modernista, com desenho de Di Cavalcante, criado em 1949. Nesta entrevista, ele fala, não só de arquitetura, mas da paixão pela arte.

Jornal Pró-Música - Como o senhor avalia essa atuação entre a rigidez da construção e a leveza da arte ao longo de sua trajetória?

Arthur Arcuri - Sempre considerei a arquitetura como uma arte funcional, criada para o bem-estar do homem. Além de ser uma construção funcional, procura se apresentar mais harmoniosamente a quem a vê. Primeiramente, procurei o lado funcional. Em Juiz de Fora, sempre busquei dar forma ao ambiente interno, o living e o jardim interno. Feito isso, buscava, através da forma, da cor e dos materiais usados, um sentido artístico. De uma certa forma, o arquiteto procura isso. É também um ramo da arte. Conversando com Oscar Niemayer, disse que eu me sentia um pingente da arquitetura. Pingente é quem andava nos bondes em pé no estribo e não tinha um lugar certo para sentar.

O interesse pela arte, em especial pela música erudita, é uma caracte-rística do senhor. Uma das principais lembranças de intelectuais juizforanos são os saraus realizados ainda na década de 40, que aconteciam no prédio da Construtora Pantaleone Arcuri, e reuniam os principais nomes das letras e da música juizforana. O senhor sente saudades daquela época? Como avalia a cultura juizforana hoje?

O meu interesse pela arte começou pela fotografia. Foi a primeira arte que desenvolvi e estudei, quando estava no Rio de Janeiro. Depois foi a música. Eu promovia audições na minha residência, quando era solteiro. Tive pessoas importantes nas reuniões, como o
maestro e compositor Lourenço Fernandes, Murilo Mendes, doutor Joaquim Ribeiro de Oliveira. Na minha avaliação, hoje a cultura é melhor do que naquela época. Principalmente, porque, antes, entre a mocidade, poucos se interessavam pela música. Chegamos a criar uma sociedade de música, pela qual muito poucos se interessavam. Hoje é diferente.

O nome do senhor sempre esteve associado ao do Pró-Música. Desde a fundação, o se-nhor integra o conselho consultivo efetivo da instituição e, recentemente, tornou-se suplente do conselho fiscal. Na sua avaliação, qual é a importância do centro cultural hoje para a cultura nacional?

Admiro muito o trabalho do Pró-Música, porque eles conseguiram que a sociedade tivesse interesse pela música e desenvolvem um trabalho contínuo, atual e benéfico para a cidade. Sempre acompanhei esta atuação, desde o início. O auditório teve intervenção minha, para conseguir a inclinação da platéia. O piso era plano, estava pronto, mas precisou ser revisto.

Aos 93 anos, sua trajetória e contribuição para a sociedade juizforana chegaram a ser imortalizadas em livro. Qual é o balanço que o faz da sua vida e quais os próximos objetivos a serem atingidos?

Eu me sinto realizado, mas nunca procurei ser importante. Fiz aquilo que achava que tinha de fazer. Coincidiu porque vim para Juiz de Fora em 1941, formei em 1947 em engenharia, e sempre tive essa sorte de as coisas que fiz, no princípio, terem sido mais importantes do que a que os outros estavam fazendo.
