Centro Cultural Pró-Música


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Memória viva


Tradição Cultural e Apoio dos Pioneiros


Arthur Arcuri guarda título de participação na compra da sede própria


    Juiz de Fora tem uma vida cultural muito representativa desde a época do Império, momento marcado pela riqueza dos "barões do café". A cidade teve o privilégio de aplaudir estréias de peças e receber grandes companhias brasileiras de óperas, operetas e de teatro, além das italianas e portuguesas. Arthur de Azevedo chegou a escrever peças de teatro, enquanto Procópio Ferreira e Carmen Miranda (1938, Cinema Glória) brilharam nos palcos da cidade. No Cine Paz, havia apresentações de filmes mudos, onde a trilha sonora ficava por conta de uma orquestra, sob a regência do maestro Mário Vieira, por volta de 1920. O Cine-Theatro Central servia de local para importantes apresentações e como sala de exibição de filmes.

    No início dos anos 70, a cidade era conhecida como a Barcelona Mineira, como disse em visita à cidade Rui Barbosa, por seu desenvolvimento industrial, estando em franco crescimento, mas não possuía um local onde pudesse sediar, sistematicamente, apresentações musicais. Não existia uma regularidade e uma divulgação ampla dos concertos, dificultando o encontro dos amantes da música. Talvez este tenha sido um dos motivos que levaram o engenheiro Arthur Arcuri, admirador da música erudita, a organizar saraus, no início dos anos 40. As audições aconteciam no prédio da Companhia Industrial e Construtora Pantaleone Arcuri, onde Arthur residia com seus pais, na época. Os saraus eram realizados por intelectuais, como os pintores Edson Motta e Guimarães Vieira ( Guima ), exigentes na preleção das músicas. Foram esses apreciadores da boa música que conseguiram organizar-se para a compra de um piano (mais tarde doado à Orquestra Filarmônica), que ficou sediado no Palace Hotel, fundando assim, em meados de 40, a Associação Cultura Artística de Juiz de Fora, sob a presidência de um dos grandes mecenas da cidade, Dr. Joaquim Ribeiro de Oliveira. Era tradição na sociedade juizforana o ensino de piano e violino para as mocinhas e os rapazes, sem que houvesse uma escola destinada a esse aprendizado. Já o ensino dos demais instrumentos ficava restrito às bandas militares.

    As audições aconteciam no Conservatório Estadual de Música de Juiz de Fora, restritas às pessoas próximas aos alunos da instituição e no Salão Nobre da Reitoria, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Num encontro de reitores do país, em 1971, um fato inusitado contribui para alterar o panorama cultural de Juiz de Fora. O famoso pianista Arnaldo Estrella realiza uma apresentação para uma platéia de cerca de vinte pessoas, no Salão Nobre. Este acontecimento deixa o pianista abismado, levando suas queixas à Maria Isabel de Sousa Santos, sua aluna, na época. O pianista acreditava que pela importância da cidade deveria haver uma maior divulgação cultural e um local que funcionasse como formador de platéia, mas admitia que faltavam pessoas determinadas e comprometidas com a cultura. Maria Isabel entendeu a mensagem de Arnaldo Estrella e, junto com o marido Hermínio, passa a se dedicar ao fomento de concertos musicais.

    A partir deste episódio nasce o Centro Cultural Pró-Música. Com um piano emprestado da Igreja Metodista Central, o casal passa a organizar apresentações musicais, abertas ao público, no Clube Juiz de Fora, Clube Sírio e Libanês, igrejas da cidade e concertos maiores, na Reitoria da Universidade, Sociedade de Medicina e Palace Hotel.

    O casal passa a ser conhecido pelo comprometimento e dedicação à música, o que era percebido por meio da organização dos concertos. Contando com a ajuda de pessoas que freqüentavam os eventos e mesmo com os amigos, iniciaram uma campanha para comprar um piano de cauda. Surge a necessidade de se ter uma sede. Seria inviável ficar transportando o novo piano para cada um dos locais das apresentações.

    Na tentativa de encontrar um lugar para abrigar o piano e de aproximar a população da música, aparece a possibilidade de construir o Centro Cultural Pró-Música atrás de um prédio na rua Santa Rita, com saída para a avenida Rio Branco, no centro da cidade. Mais uma vez o casal começa a procurar amigos e conhecidos com o objetivo de arrecadar dinheiro para viabilizar a construção da sede.

    A fórmula encontrada foi pedir a antecipação das mensalidades, de cincos anos, aos sócios, que desembolsaram CR$ 1 mil (hum mil cruzeiros), cerca de R$500 atuais, em cinco parcelas, recebendo, em troca, isenção da contribuição pelo período correspondente. O engenheiro Arthur Arcuri foi um dos que contribuiu, por estar envolvido com a música desde a década de 40. Ele também ajudou Maria Isabel e Hermínio a resolverem o problema do piso do teatro, que era plano e precisava ter inclinação. Até hoje, guarda em casa os documentos do período inicial do Pró-Música em Juiz de Fora. Arthur trabalhou ao lado do decorador Walter Pacheco, responsável pela concepção, construção, acompanhamento, ambientação e criação ornamental e decorativa da obra da sede. Pacheco conseguiu que um cinema do grupo Severiano Sarmento, do Rio de Janeiro, vendesse 500 poltronas para o Pró-Música, numa condição especial. Elas estão no teatro até hoje. Todo o trabalho de Walter Pacheco teve um custo simbólico para a entidade, pelo tempo de trabalho que ele dedicou à obra.

    O advogado Edson Campos Porto foi outro colaborador do Pró-Música. Ele acreditou no Centro Cultural devido ao dinamismo do casal, levando outras pessoas a aderirem à proposta. "Com o passar do tempo o Pró-Música passa a se confundir com o nome do casal. Havia um vazio cultural. Juiz de Fora hoje tem até projeção internacional". Geraldo Halfeld também acreditou na proposta. Ele conta que foi estimulado a investir na construção da sede devido à força de vontade do casal, que projetou um grande Centro Cultural. Ressalta ainda que Juiz de Fora era "paupérrima em termos culturais. Vi o quanto foi difícil construir este castelo que é hoje o Pró-Música". Geraldo foi o responsável pela apresentação, ao casal, de uma pessoa muito importante na angariação de fundos, o deputado federal alemão Herman Goergue. Herman conseguiu verbas do governo e também do fundo católico alemão, Miserior, para entidades filantrópicas.

    Dos investidores entrevistados, nenhum se arrepende de ter acreditado no Pró-Música. As pessoas que emprestaram dinheiro também foram restituídas. O que eles tinham em comum com o casal era a certeza de que Juiz de Fora precisava de um espaço que suprisse a carência cultural da cidade, por meio de concertos e espetáculos mensais de qualidade. Quanto a atitude idealista do casal, que chegou a sacrificar seus próprios bens em detrimento do sonho, todos os entrevistados fizeram questão de felicitar a atitude visionária e determinada de Maria Isabel e Hermínio e cumprimentá-los pelo sucesso do empreendimento.

    Essa história toda já tem 30 anos. Desde o início de suas atividades, o Centro Cultural Pró-Música vem cumprindo o papel de criar uma cultura musical na cidade, promover concertos mensais, concursos nacionais de piano e cordas, de divulgar a cultura local e ensinar as pessoas a fazerem e gostarem de música. Em três décadas, a Instituição conquistou seus objetivos e alçou outros vôos. Ao criar o Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, em 1990, passou a preservar e divulgar um rico acervo musical brasileiro, projetando Juiz de Fora no país e no exterior.


Agradecimento

   A direção do Centro Cultural Pró-Música agradece a Flávio Salles e seus familiares pelo apoio prestado à Instituição com a utilização, sob aluguel, dos imóveis da Rua Espírito Santo, 969 e 977 onde, durante 13 anos, funcionou a Escola de Artes Pró-Música.



Centro Cultural Pró-Música
promus@terra.com.br